16 de junho de 2008

Os encantos do futebol de várzea

Andréia se joga na várzea e desvenda os bastidores da raiz do futebol

por Andréia

Há quem prefira o futebol de várzea à badalação dos federados. Para alguns, ele recebe a alcunha de “alternativo”. Realmente é algo consideravelmente indie, se pararmos para analisar.

Na várzea, todo mundo é VIP, não paga para assistir, e se vira como pode, para se acomodar onde quiser. O campo não tem grama, e tudo acontece na terra batida. E quando o drible é ligeiro, a terra sobe. Não há chuteira moderna e caríssima que resista à vermelhidão do chão.

Cheguei ao local, próximo à Estrada do Imperador, na Zona Leste de São Paulo, com cinco minutos de defronta iniciada. Vacilo meu, porque insisti em fazer outro caminho. A partida fazia parte de um campeonato financiado por uma famosa marca de cervejas.

Os times de EC Nápoli/V.Industrial e Santa Cruz FC/Jd.P.J.Nunes não haviam balançado as redes ainda. Conversando com um rapaz, descobri que o Nápoli vestia azul e o Santa Cruz, branco. Ao fim de papo, percebi que ele fazia parte da comissão do Nápoli. Resolvi dar uma volta por ali, antes de parar para ver o jogo. Não que pudesse haver confusão, porém, para não dar sopa ao azar, cada torcida ficava de um lado.

Encontrei um espaço na grade, ao lado de uma turma com a camisa do Santa Cruz, e por lá fiquei. E logo, o primeiro gol saí para o time alvo. Gritaram vários nomes, portanto, por mais bizarro que seja, não tenho idéia de como o autor do lance se chama. A comemoração era tanta, que assustou um homem que cochilava deitado em um banco de concreto – talvez futebol não seja a dele.

O diferencial da várzea é que enquanto nos grandes estádios, vez ou outra você ouve um palavrão ao relento, em meio a tanto barulho, no campinho básico, tudo fica mais nítido. E o árbitro era alvo de várias especulações dos espectadores. “Esse cara bebeu pinga ontem à noite?”, disse um deles, revoltado com um impedimento duvidoso. “Até na várzea tem disso?” reclamou outro, que ao final do primeiro tempo, preferiu ir para casa, almoçar.

Dirigi-me para a outra extremidade do campo. Durante o percurso, notei muitos adolescentes sentados em um grande muro, atrás das traves. Permaneci próxima aos representantes do Nápoli. Ora, alguém passava comendo algum petisco, saboreando um picolé, ou simplesmente bebendo cerveja. E os catadores de latinhas faziam a festa, saindo com a sacola cheia. Enquanto observava um garoto à caça dos metais, que posteriormente trocaria, no ferro-velho, por algum dinheiro, um atleta do Santa Cruz se machucou na área. Depois de alguns minutos de socorro médico sem nenhum resultado, um torcedor impaciente disse para qualquer um escutar: “Enfia o dedo no c* dele, que ele levanta daí rapidinho, pó**a!”. Chega! Foi o suficiente para que eu transitasse a outro lugar do campo.

Ao perceber que o portão de acesso ao campo estava aberto, saquei a máquina, para fotografar este novo ângulo. Então, um representante da organização da competição surgiu, pedindo para que eu me retirasse de lá. Aleguei estar fazendo uma reportagem, por isso as fotos, e surpreendentemente, ele convidou-me a adentrar. Agradeci, e cliquei o que considero suficiente, saindo em seguida.

Várzea é assim. A maioria é tranqüila, pacífica. Prova disso é que, antes de ir embora, encontrei um torcedor palmeirense conversando com alguns corintianos. “Ih! Nossa foto vai queimar tua máquina!” disse um deles. Contudo, foi irresistível não registrar essa cena.


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