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06 de fevereiro de 2009

Futebol... com as mãos

Já se foi o tempo em que futebol americano só era levado a sério na terra do Tio Sam

por Andréia

Em época de Copa do Mundo, se você perguntar aos norte-americanos nas ruas das principais capitais dos Estados Unidos, qual é o evento esportivo que está acontecendo, muitos deles não teriam a mínima idéia – a não ser que ocorresse dentro do próprio país, como em 1994. Pudera! Lá o futebol é outro, jogado com as mãos, e ao contrário do que muitos pensam, não tão violento assim [veja a diferença entre as modalidades flag e tackle, no quadro abaixo], e para qual existem equipamentos de segurança.

Diferenças entre o flag football e futebol americano [tackle]

Flag

Equipamentos: não há a necessidade de equipamentos de proteção. São utilizadas duas bandeirinhas coladas/amarradas na cintura do jogador.

Quantidade de jogadores em campo: de seis a nove.

Quantidade de jogadores ao total: 30 [trinta]

O que encerra a jogada: quando o defensor consegue, sem contato físico, retirar uma das bandeiras do rival.

Tackle

Equipamentos: capacete, protetor para ombros e coxas.

Quantidade de jogadores em campo: onze

Quantidade de jogadores ao total: 53

O que encerra a jogada: quando o defensor faz o contato físico, derrubando o adversário em posse de bola.

 

 

Aqui no Brasil, aos poucos o futebol americano vem crescendo, principalmente com os adventos da TV a cabo e Internet. Para os mais vidrados na cultura pop, não é desconhecido que o noivo da übber model brasileira Gisele Bündchen seja o quarterback Tom Brady, e o motivo da briga entre as cantoras Carrie Underwood e Jessica Simpson seja o também quarterback Tony Romo. Ambos os galãs são estrelas da NFL [National Football League], pelas equipes de New England Patriots e Dallas Cowboys respectivamente. Ou ainda, o fanatismo da coelhinha Kendra Wilkinson, da série Girls Of The Playboy Mansion, pelo San Diego Chargers. O Superbowl é o evento mais visto no mundo todo, ganhando até da Copa do Mundo de Futebol [com os pés]. E no país do football de Charles Muller, o esporte vem ganhando mais adeptos de tempos em tempos. Prova disso, são os praticantes, e até a existência de ligas específicas.

Em São Paulo, um dos times é o Locomotives, que em parceria com o Palmeiras, já saboreou o assédio da mídia em vésperas de clássico com o Corinthians Steamrollers. Mas, vamos falar dos Locos, cujo primeiro treino da temporada 2009 pude acompanhar.

O ponto de encontro é praticamente fora da cidade, no Clube de Campo do Palmeiras localizado no bairro de Parelheiros. O motivo: desde 2006, a prefeitura de São Paulo proibiu a prática de futebol americano nos parques da cidade, e não apóia a modalidade. Conversando em off com um dos veteranos da equipe, soube de uma expulsão sofrida por eles em um desses parques. “E por que vocês não se unem a outros times e pressionam a Secretaria de Esportes?”, sugeri várias vezes. Afinal, nenhum segurança coloca para correr aquela aula prática de reprodução biológica protagonizada por casais calorosos nos mesmos parques.A partir deste pequeno obstáculo percebe-se o companheirismo dos Locos. Quem tem carro oferece carona aos que dela necessitam para atravessar a cidade. Desta maneira, todos podem chegar ao treino.

E apesar do profissionalismo em relação à postura, desde a administração até o plantel, o sucesso é resultado de muita luta. No domingo, dia 25, o assunto era a possível eleição palmeirense do presidente Beluzzo, programada para o dia seguinte. Até porque, os Locomotives pretendem investir na modalidade com tackle, entretanto, o valor mais em conta do equipamento não é menos do que R$ 1 mil. Nenhum jogador recebe espécie alguma de ajuda do governo, que ainda não reconhece o futebol americano no país.

 

Os Locos voltando à ativa em 2009: uma corrida para começar a série de exercícios; uma preleção, feita pelo treinador Karl Watts; Miaga, ao lado de Stiffler, que recebeu uma homenagem pelo bom comportamento na temporada passada.

 

Rubens, o Big Pai, é um exemplo de que o futebol americano é diversificado, e que nunca é tarde para se apreciar a prática:  ele conheceu o esporte aos 49 anos. Levava os filhos, hoje os jogadores Big Show e Hammer, para treinar, e logo ele próprio já vestia a camisa número 51. “Meu filho Big nunca gostou de praticar nada. Tentei colocá-lo no karatê, no futebol...”, conta. Hoje em dia, todos estão envolvidos com o time, até mesmo a Big Mãe.

Perguntei qual é a resposta dada quando são obrigados a ouvir dos leigos que futebol americano é rasgação de seda para gringo – e irônicamente, na maioria das vezes essas críticas partem de quem adora as jogadas de Wayne Rooney e Cristiano Ronaldo, por exemplo. Marco Bucci, um dos fundadores e atual diretor de comunicação do time acredita na diversidade de biotipos como resposta: “Dentro de uma equipe você tem jogadores altos e magros que correm pra receber lançamentos longos, jogadores com sobrepeso para formar as linhas de proteção, além dos jogadores baixos e velozes que ‘costuram’ as corridas entre outros adversários.” Aliás, fato é que os gordinhos têm vez. Marco ressalta: “Particularmente, eu acredito que o flag football, que é o braço pedagógico do futebol americano por ser uma modalidade com contato limitado, é a solução para o problema da Educação Física escolar que sofre por não resolver o problema dos jovens com sobrepeso que ficam marginalizados durante as aulas.”

Os jogadores, durante o treinamento: amistosos e nova temporada pela frente

A parceria com o Palmeiras já havia lhes rendido o local para os treinamentos, e com a eleição no novo presidente, Beluzzo, as expectativas de alcançar a elite dos esportes amadores do clube são maiores. “Eu recomendo que todas as equipes busquem parcerias com os grandes clubes pelo simples fato de que os clubes podem viabilizar uma estrutura melhor para o desenvolvimento do esporte. Além disso, a imprensa se interessa por grandes marcas e não por desconhecidos”, acrescenta Marco, que em parceria com Hilton Takahashi e Paulo Munuera, fundou os então Metropolitan Locomotives em 2006, vencendo o Paulista do mesmo ano.

Todavia, o apoio financeiro para qualquer esporte que não seja o futebol com os pés continua sendo nada fácil – ainda mais em tempos de crise financeira. Marco explica: “Por enquanto são investimentos tímidos limitados à micro e pequenas empresas. Isso se dá principalmente pelo que eu falei sobre o interesse das grandes marcas. Outro problema é o da liga não ter grande visibilidade ou estrutura. Não é nenhum exagero dizer que as equipes parceiras dos grandes clubes possuem infraestrutura superior à da instituição que organiza os campeonatos. Devido a total falta de apoio da prefeitura, a liga precisa alugar campos em áreas pouco acessíveis para a realização de suas competições. Com pouco acesso e pouca imprensa, a visibilidade é pequena e, portanto, os investimentos [de patrocinadores] também são pequenos”. Ao contrário disto, a NFL vem rendendo até para o Brasil no Superbowl do dia 1 de fevereiro, cujos intervalos, de acordo com notícias divulgadas pelo site Máquina do Esporte - especializado em marketing esportivo - dois patrocinadores e cinco inserções avulsas para a emissora transmissora do evento.  Nos Estados Unidos, o preço para a veiculação de uma peça publicitária de 30 segundos era de US$ 3 milhões.

Apesar de o futebol americano ter crescido de popularidade no Brasil, por que ainda não há uma aceitação maior? ”Pura desinformação, tanto por parte do público, quanto da imprensa. As pessoas acreditam que é um esporte de pancadaria. Isso é um mito... Quem teve a oportunidade de jogar mudou completamente de opinião. Bastaria que as pessoas vivenciassem a modalidade para entender que se trata de um esporte de muita disciplina tática e inteligência”, responde Marco, que complementa: “Outro problema que temos é o de não ter uma imprensa especializada. Salvo as exceções das emissoras de TV a cabo que valorizam bem este esporte, são poucos os profissionais na imprensa esportiva que valorizam ou entendam este esporte.”

Fato é que o futebol americano, devagarzinho está conquistando corações brasileiros, inclusive, de fãs da variante com os pés. Para o touchdown acontecer ainda será necessário o apoio de entidades esportivas e do governo. Embora represente o profissionalismo, equipes tais quais os Locomotives carecem de condições dignas para apresentações de suas performances, que podem, sim, tornar-se importante alternativa de entretenimento e lazer.

 

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