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06 de abril de 2008

Regiani Ritter: “Qual dos que me dirigiam palavras desagradáveis não gostaria de estar no meu lugar?”

Em entrevista exclusiva, a jornalista Regiani Ritter fala sobre futebol, machismo e mostra que definitivamente é a Madonna da crônica esportiva

por Andréia

Regiani Ritter é sinônimo de pioneirismo entre as mulheres que atuam ou atuaram pelo jornalismo esportivo. Se hoje, é comum que centenas de garotas cursem Jornalismo, prontamente visando a área esportiva, principalmente o futebol, nos tempos de Regiani não era bem assim.
No entanto, o fruto de seu esforço foi o reconhecimento. Regiani cobriu três Copas do Mundo. Entre elas, a que culminou ao tetracampeonato brasileiro, em 1994, nos Estados Unidos.
A agenda apertada fez com que a entrevista abaixo demorasse por uns dias a acontecer, na verdade, quase um mês. Contudo, valeu a pena esperar. Regiani fala sobre detalhes interessantes de sua carreira, cutuca a pseudo-liberdade que os assessores de jogadores permitem à imprensa e ainda passa dicas para as gurias que almejam um lugar na imprensa esportiva.

Como surgiu o convite para ingressar na crônica esportiva?

Regiani - O convite foi de Pedro Luiz Paulielo, um dos maiores e melhores narradores do rádio do Brasil. À época diretor de esporte da rádio Gazeta-AM, teve um de seus repórteres deslocado para cobrir a seleção brasileira na Toca da Raposa - E me convidou para colaborar. Cada dia da semana eu cobria um clube, e no final de semana, na hora do bom, as transmissões, eu estava fora da escala.

Você já possuía algum interesse em especial pelo futebol, nutrido da infância?

Regiani - Eu apenas gostava de futebol, não entendia quase nada.

Regiani se consagrou no rádio esportivo.

E para qual time torce?

Regiani - Depois que comecei a atuar como repórter, não disse mais para que clube torço. Era uma necessidade, já que tinha de matar um leão por dia pra provar que podia...

Como foi o começo? O impacto do preconceito foi muito grande?

Regiani - Foi melhor do que eu esperava. Bem recebida por jogadores, técnicos, dirigentes e colegas veteranos, com poucas exceções. Declarações machistas viriam mais tarde, quando o tempo mostrou que eu não era uma pára-quedista...

Recorda-se de alguma situação de declaração machista, ou algo parecido?

Regiani - Nada de grave. Duro era enfrentar as torcidas do interior, quando eu andava pelo gramado entrevistando jogadores. Mas era compreensível, afinal, qual dos que me dirigiam palavras desagradáveis não gostaria de estar no meu lugar

Uma das imagens mais marcantes que temos de você é aquela foto em que está entrevistando o Antônio Carlos e o Velloso, nos vestiários, durante o banho. Uma mulher em um vestiário masculino. Você já tinha esse aval desde o primeiro jogo que cobriu, ou adquiriu com o passar do tempo?

Regiani - Nem pensar no primeiro jogo. Fiquei um ano cobrindo o São Paulo e entrando nos vestiários quando meu câmera me avisava que eles estavam parcialmente vestidos. Mas também depois da primeira vez, com o técnico Cilinho me levando pela mão, aí escancarou.

Houve problemas com o tempo, mas insignificantes, e nunca com os diretamente envolvidos. Ora era um porteiro desavisado, ora um conselheiro chato... e só.

Foto lendária: Regiani entrevistando Antônio Carlos e Velloso, na época, jogadores do Palmeiras

Quais são as vantagens e desvantagens por ser mulher na crônica esportiva?

Regiani - Uma das vantagens é que a sensibilidade natural da mulher dá um toque, digamos assim, mais humano, até quase poético, e eles acabam confiando mais na gente, e falando mais. Uma das desvantagens é às vezes precisar de mais força física pra encarar uma parada dura, alguém que todo mundo quer ouvir... mas isso foi mais no passado, quando havia liberdade, hoje está todo mundo bem comportado [amarrado] nas tais coletivas que se repetem...repetem...repetem...uma porcaria!

Você tem noção de que inspira muitas gurias que entram na faculdade de Jornalismo, ou muitas que já estão na área?

Regiani - Fui ter noção quando já estava confirmada no meio, e as meninas me procuravam para entrevistas, uma delas chegou a me dizer, "quero ser você quando crescer". Foi quando percebi a responsabilidade, até então era apenas mais um trabalho, um desafio...

Você recebeu um prêmio em 1991, do Sindicato, como melhor jornalista, e participou de uma Copa do Mundo, a de 1994. Entre as duas experiências, creio que ambas foram maravilhosas, se tivesse escolher uma só, qual seria?

Regiani - Você está certa: as duas experiências foram maravilhosas!

Foi muito engraçada a escolha de melhor em 91. Pessoas do sindicato deixavam recados na redação do "Diário Popular" onde eu trabalhava, para entrar em contato com eles. Imagine! Eu estava também na Rádio e na TV Gazeta, mal dava tempo de comer.

Alguns dias depois uma fotógrafa chamou meu nome, enquanto eu redigia uma matéria, eu virei e olhei, e ela começou a me fotografar. Eu ri e brinquei: "pára com isso que estou sem nem batom, e despenteada". Eram fotos para o jornal "Unidade", do sindicato. Como não conseguiram me entrevistar, colheram depoimentos com meu editor e com uma jornalista amiga, e recebi o jornal com a minha foto na capa, ao lados dos premiados do ano. Foi bárbaro! E a Copa do Mundo na verdade começou em 1993, fiquei 84 dias com a Seleção nas eliminatórias, e 55 dias nos Estados Unidos quando ganhamos a Copa depois de 24 anos de jejum. Se eu tivesse que escolher um dos fatos, seria a cobertura da Copa.

Qual é a sua opinião sobre as torcidas organizadas?

Regiani - Tenho sérias restrições às organizadas, pela violência que tira o encanto de um esporte que é uma grande fábrica geradora de empregos, que une raças e tenta vencer o racismo, que provoca muita emoção. Mas a culpa é também de clubes que ainda financiam algumas delas, da justiça que não pune com rigor, etc...

E sobre a teoria de que a cada mulher no estádio, um palavrão a menos?

Regiani - Essa teoria é meio furada, que hoje ninguém se inibe por ter uma ou mais mulheres por perto. Até porque nós também falamos, o que acaba de esculhambar tudo. Nem todas falam, mas acabam pagando pelas que falam...

O Campeonato Paulista está muito bem disputado. Vários times lutam pelo G-4. Quais equipes você acha que conseguirão, ou têm chance de serem classificados?

Regiani - Bem, quanto às equipes do Campeonato Paulista, já estamos muito em cima da hora, já tem duas classificadas, mas acho que São Paulo e Corinthians devem ficar com as últimas duas vagas, e o Guaratinguetá está sendo a maior surpresa. De qualquer forma, apesar da falta de datas e da fórmula, que acho injusta, neste ano está melhor do que em 2007. Não gosto de semifinais e finais, sou defensora de pontos corridos.

Quem você acha que joga muito atualmente e quem é o superestimado?

Regiani - Acho que o Valdívia está jogando bem, ele joga com alegria.

E o Adriano me decepcionou. Apesar de ser o artilheiro do São Paulo, está devendo futebol e gratidão ao time que lhe deu a grande chance de reabilitação...

Você tem algum jogo marcante? Ou gol, jogada?

Regiani - São Paulo 4 x 4 Palmeiras, 1985, Pacaembu. Jogo inesquecível. O gol do Pita foi de placa, lindo, também inesquecível. Era espetacular ver a torcida do Palmeiras enrolando as bandeiras pra sair. Saia gol do Palmeiras, eles paravam. Mais um do São Paulo, e eles começavam a descer da arquibancada. Gol do Palmeiras, eles interrompiam a caminhada. Enfim, teve torcedor que não viu o 4º gol, o de empate. O Leão (melhor goleiro) cometeu penalidade, e o Careca (melhor atacante) bateu com raiva, com força, e... perdeu. Foi um jogaço!

Para finalizar, diga-me quais são as tuas dicas para quem está começando, e principalmente para as meninas.

Regiani - Bem, diferentemente da minha época, hoje a liberdade do repórter esportivo foi cerceada pelas coletivas, pelos assessores de imprensa, um horror. Mesmo assim, bom saber e atentar para o detalhe de que um trabalho investigativo e sério vai poupar o profissional de uma saia justa. Bom relacionamento sempre vai gerar uma boa fonte de informações. Afobação e querer sair na frente pode dar em ter de pedir desculpas e se retratar. E, principalmente, gostar e entender do esporte que vai cobrir, seja vôlei, futebol, basquete... E o bom relacionamento não implica em ficar íntimo dos envolvidos. Para a mulher é fatal. Envolvimento afetivo ou meramente sexual pode até interromper uma carreira, como vi acontecer algumas vezes... Trabalhar sério, não ter medo, e acreditar no que faz.

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