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Nasci na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, na primeira hora de 19 de março de 1987 – o ano da Copa União, que posteriormente geraria o imblóglio da Taça das Bolinhas. Talvez por um sinal do destino, eu era o único bebê do sexo feminino entre os nascidos das mulheres que deram entrada naquele hospital junto com a minha mãe. Cresci rodeada de animais, de verde, em plena selva
de pedra na Terra da Garoa. Neta única de meus avós maternos,
passava o dia com eles enquanto meus pais trabalhavam. Meu avô
ouvia rádio AM em um aparelho antigo, e minha avó cozinhava;
entre suas especiarias, o pirão e a streuselküchen, heranças
de meu bisavô açoriano e minha bisavó alemã.
Nas férias, íamos para Santos ou Santa Catarina. "Tudo o que aprendi, devo à força de vontade de alguns professores e meu individual interesse." Na escolinha, não era uma excelente aluna no quesito notas, mas chamava atenção dos professores pela mentalidade diferente dos demais coleguinhas. Tia Cláudia, a professora de jardim de infância, chamou minha mãe para conversar, aconselhando-a a me matricular em uma escola para crianças adiantadas - o que não aconteceu, devido às condições financeiras que freqüentávamos. Ela apenas podia pagar a pré-escola, e a partir da primeira série tornei-me mais uma nas escolas do Governo do Estado. Tudo o que aprendi, devo à força de vontade de alguns professores e meu individual interesse. O futebol sempre esteve presente em casa. Meu pai, um baiano que antes de completar 10 anos de idade, viu Pelé ser campeão mundial, chegou a “jogar bola” nos anos 60 e 70, e tamanha sua paixão pelo Santos Futebol Clube, até hoje não se conforma por eu preferir o Corinthians. Coração é uma coisa complicada. Apesar disso tudo, eu nunca joguei na escola, porque diziam que era coisa para meninos. Para falar verdade, não me dava bem nas aulas de Educação Física, e sempre as findava chorando, ou na enfermaria, passando mal. "Eu nunca joguei [futebol] na escola, porque diziam que era coisa para meninos." Eu preferia escrever e desenhar. Minhas historinhas em quadrinhos rodavam a sala de aula, e minhas matérias de mentirinha soavam realidade. Aos domingos, montava um estúdio de rádio de faz-de-conta na mesa da cozinha, e infernizava a vizinhança com o som do microfone. Também cheguei a produzir uma revista feminina com papel sulfite dobrado ao meio, com recortes, desenhos e textos datilografados – minha mãe tinha uma máquina de escrever que fazia minha alegria. Eram sutis sinais de que eu já sabia o que queria ser quando crescesse. Mesmo tímida, me apresentava em mini-shows no quintal, onde eu cantava músicas da Thalia. Infelizmente nem tudo era perfeito, e sofri de bullying. É normal que todo mundo tenha que passar por apelidos na escola, entretanto, eu fui perseguida por anos pelas mesmas pessoas. O que era brincadeira, tornou-se falta de respeito e ocasionou várias visitas à diretoria. Chorei muito, o que preocupava minha mãe. Quiçá tenha superado tudo aquilo com as orações de minha mãe e minha avó, muito fervorosas, pois nunca pude pagar análise. Quando tinha 13 anos, entrei para o casting de uma agência de modelos e atores. Mesmo não sendo alta, desfilei por algumas vezes, no entanto, minha renda vinha mais de promoções e figurações. Não era muito, porém, já dava para bancar o sorvete com as amigas, aos finais de semana. Meus avós ajudavam minha mãe a pagar meus cursos de idiomas, moda e informática, pois queriam que eu tivesse cultura e preparação para as oportunidades. Na Copa do Mundo de 2002, assisti a quase todos os
jogos. Fiquei encantada com a festa, as cores, as pessoas e os lances
emocionantes dentro de campo. Creio que o pentacampeonato do Brasil
tenha me impulsionado muito mais. Saí sozinha, comemorando a
vitória pela rua de casa, vestida de verde e amarelo, mexendo
com os carros abarrotados de famílias, que também devidamente
caracterizadas com as cores buzinavam, gritavam, e estendiam suas bandeiras
ao vento. Ali eu tive certeza: queria viver aquilo dentro de estádios
mundo afora. Decidi cursar Jornalismo e sabia que teria grandes barreiras
pela frente, por ter estudado na rede pública em quase toda a
vida. "Meus avós ajudavam minha mãe a pagar meus cursos de idiomas, moda e informática, pois queriam que eu tivesse cultura e preparação para as oportunidades." Blogs são comuns entre meninas. Comigo não foi diferente se não fosse o detalhe de que publiquei um para falar de futebol. Tinha 17 anos e o domínio era gratuito. Abusava da cor rosa e usava bonequinhas parecidas comigo para ilustrar o layout. Nascia ali o Andréia no País do Futebol, que em seguida ganhou versão de website em domínio próprio. "No primeiro semestre tive de abandonar o sonho por não possuir 908 reais mensais para custear o curso. Deus coloca esses obstáculos para que nos tornemos mais fortes e valorizemos cada vitória alcançada." Durante a Copa de 2006, perdi minha avó materna e depois de algum tempo de tristeza, decidi que ela teria orgulho de mim, de onde quer que estivesse. Em 2007 entrei na universidade – nada mais do que minha obrigação entre meus familiares, de maioria graduada – e no primeiro semestre tive de abandonar o sonho por não possuir 908 reais mensais para custear o curso. Deus coloca esses obstáculos para que nos tornemos mais fortes e valorizemos cada vitória alcançada. Não desisti de mim mesma: no mesmo ano vivi experiências profissionalmente gratificantes como repórter nos programas Tribuna do Esporte e Hora do Esporte, e comentarista em partidas, pelo STI Esporte. O ano de 2008 chegou e foi um dos melhores da minha vida. Produzi várias matérias e aprendi bastante. E para fechar com chave de ouro, pude retomar os estudos – o que eu precisava para alavancar meus objetivos. Agora é hora de mostrar meu trabalho. De provar que a mulher pode entender de futebol, sem perder o estilo e a feminilidade. E para quem nasceu nas mesmas condições que as minhas, de que é possível ser alguém com o próprio esforço.
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